Ecos do espelho
Literatura de bom gosto e pouco conhecida


Domingo, Novembro 28, 2004  

Porque te amo, porque te odeio
Bianca Campello

Porque te amo, porque te odeio
Porque me jogo, porque me abandono
Porque sinto a dor do mundo no teu cheiro
Porque te deixo só no escuro
E no sonho

Porque te sinto, porque me reprimo
Porque quero traçar meu próprio destino
Porque te largo, porque é amargo
Este gosto seco da vida pedra

Porque não tem, porque é sem
Futuro, espelho, eco
Calor

Porque desejo a cura da alma
A vida é uma dúvida dolorosa
Que me deixa muda

posted by BIANCA MOREIRA CAMPEIRO | 11:11 PM


Sábado, Novembro 20, 2004  

Sou a cobra de olhos secos.
O macaco pelado que se articula ao mundo pelo grito.
O polvo sem ventosas, o peixe com patas,
o ciclope mítico
cego.

Eu sou o pedaço menor do ser mais egoísta.
Eu sou a destruição.
Eu sou a construção.
Sou a voz que você sente e não quer ouvir
e o medo que você não pode ignorar.

Eu sou o mais fundo de você
que dói.
E você não consegue chorar.

posted by BIANCA MOREIRA CAMPEIRO | 9:54 AM


Sexta-feira, Novembro 19, 2004  

Às vezes as palavras dos outros são tão nossas que nos apropriamos delas. E é o que eu faço aqui.

Hoje eu tô sozinha
Ana Carolina

Hoje eu tô sozinha
E não aceito conselho
Vou pintar minhas unhas e meu cabelo de vermelho
Hoje eu tô sozinha
Não sei se me levo ou se me acompanho
Mas é que se eu perder, eu perco sozinha
Mas é que se eu ganhar
Aí é só eu que ganho

Hoje eu não vou falar mal nem bem de ninguém
Hoje eu não vou falar bem nem mal de ninguém

Logo agora que eu parei
Parei de te esperar
De enfeitar nosso barraco
De pendurar meus enfeites
De fazer o café fraco
Parei de pegar o carro correndo
De ligar só pra você
De entender sua família e te compreender
Hoje eu tô sozinha e tudo parece maior
Mas é melhor ficar sozinha que é pra não ficar pior

posted by BIANCA MOREIRA CAMPEIRO | 1:12 PM


Quinta-feira, Novembro 11, 2004  



Essa foto foi tirada por minha amiga Roberta Paes no parque da Jaqueira, no último sábado. Estávamos fazendo uns testes para a capa do meu livro, que espero publicar ainda esse mês. Aguardem!!

posted by BIANCA MOREIRA CAMPEIRO | 1:15 PM


Segunda-feira, Novembro 08, 2004  

Aquela carinha angelical queria libertar a serpente escondida, tatuagem aberta apenas aos escolhidos. Pintava as unhas de vermelho escuro e os lábios de marrom. O corpo a limitava na sua comunicação. Não seria a menor mulher do mundo por mera idéia que não se tivera a tempo. Precisava da sofisticação dos saltos-agulha para se fazer notar e uma ária de Carmem inteira para se fazer entender.
Não adiantava. Emudecia-se sua voz e sua imagem era maior do que qualquer palavra. Viam uma menina. Por isso conservava os cabelos curtos, vermelhos e os cortes cada vez mais profundos, vermelhos. Precisava de mais de três corações, mas mesmo tendo deixado doze corpos inúteis para trás ainda era prisioneira de uma idéia morta. Todos esperavam a razão do sonho romântico em suas ações: o amigo gay, a melhor amiga, o terapeuta de reiki e a treinadora de kung-fu. Mesmo o menino bandido, que ela abandonara por ser pesado demais para sua jornada no caminho que não levava a Santiago.
Um dia, chorava em desespero de apego porque a incerteza da ciclicidade da expansão do mundo interferia na sua própria eternidade e o amigo gay disse: "Você é muito sensível." Revoltou-se. Não era sensível, era humana e egoísta e desejava viver eternamente nos reinos dos prazeres. Sem conseqüência, apaixonadamente, entregue à própria lascívia do seu corpo e do corpo do homem que soubesse seu segredo.
No ponto máximo da fúria, atirou seu próprio rosto contra o espelho. Rasgaria por inteiro aquela máscara tola que teimava mantê-la uma eterna crisálida, ela, tão notívaga e sem fim.
Acordou tardiamente. Percebeu, com o horror de dois dentes quebrados e do sangue que respingava das faces lanhadas e brilhantes, tanto estilhaços ostentavam, que a máscara de si era ela.

posted by BIANCA MOREIRA CAMPEIRO | 8:00 PM


Quinta-feira, Novembro 04, 2004  

queria tirar você do pensamento
esquecer de vez teus olhos
acabar com esse silêncio
que mantém o eco dos teus passos em mim

quiçá fosse bom
voltar todo nosso tempo
apagar a lembrança
do amor que míngua porque não pode ser

já me flagrei tecendo na imaginação
as cenas em que consigo te deixar
sem me perder

olho no espelho e percebo
que é apenas ilusão
meus olhos são teu reflexo em mim

posted by BIANCA MOREIRA CAMPEIRO | 11:23 PM


Quarta-feira, Novembro 03, 2004  

Não, eu não descrevi o espelho - eu fui ele.
(Clarice Lispector, Água Viva)

posted by BIANCA MOREIRA CAMPEIRO | 7:54 PM
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